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Mostrando postagens com marcador André Espínola. Mostrar todas as postagens
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Pela dor dos Outros (as pedras do sertão)

Foto: Felipe Ferreira

as pedras do sertão
tem a forma
calejada
pela dor dos outros.

e como alma e corpo
são a mesma parte
de uma coisa só,

a alma da pedra
é calejada
pela dor dos outros.

nasceu com o dom
de ser o único habitante
contemplativo
em meio ao suol,
à fome e à sede.

mas não foi.

seu coração de pedra
não se omitiu ao sofrimento,
e foi sendo calejado
pela dor dos que ainda vivem
nas estradas de pedra,

dos que ainda choram
lágrimas de pedra,

dos que fartam-se
em pratos e copos de pedra,

e dos que fartam
os urubus com seus bicos
e garras de pedra.

ou a dor infinda
dos quais só restam
cadáveres

enraizados
na terra.

André Espínola
http://andreespinola.blogspot.com/

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Aguarde. Uma Boa Viagem


Aguarde.

Aguarde a passagem de imagens
Sempre iguais.

De carros
Indo e vindo
Nas BR's
Que parecem
Ter seus asfaltos
Naturais.

Aguarde a passagem de casas
Anônimas na beira da estrada.

E camponeses
Cuidando de suas vidas
Como cuidam
De bodes
E
Cabras.

Aguarde o sol cansar-se
Do esconde-esconde
Nas nuvens.

Em breve estará nu,
Lá em cima,
Sobrepondo serras e montes
Como amarela tinta
Perdida
No canto
De um quadro azul.

Aguarde a passagem das inúmeras
Plantações de cana de açúcar.

Irmãs gemeas umas das outras,
Formando todas juntas
Macia cama
Às costas
Deformadas
De um gigante.

Aguarde a passagem do ano
Em cento e não sei quantos
Quilômetros.

Aguarde,
Já comprei a passagem.

Estou chegando.

Enquanto...
Tua voz chega em segundos
Pelo aparelho telefônico,
Desejando:

- Boa Viagem.

André Espínola

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sábado, 1 de dezembro de 2007

Nano

Minha pequenez de ser humano

é tão grande

que gostaria

de ser

-menor-

ainda.

Como um imenso romance

.....................(que enxuga suas linhas)

E reduz seu tamanho.

Termina

Um

nano

.

De 128 caracteres.


Autor: André Espínola


sábado, 24 de novembro de 2007










Nos teus olhos verdes,
Há duas pequenas poças de mar
Fora do oceano.

As águas são calmas,
E Netuno não é soberano.

Não preciso de vento
Nem de vela.

- Éolo que mande seus ventos
para outros cantos! -

Basta-me teu olhar,
Para neles seguir navegando.

Autor: André Espínola

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Luzes dos Postes da Cidade

















Foto: Pracinha em Recife, de Felipe Ferreira

Salve as luzes dos postes da cidade
Que me guiam à desconhecidas ruelas,
E a desertos
E secretos
Lugares.

Onde há rua,
Mas nela não passa carros,
Enquanto a calçada insinua
A virgindade de passos.

Salve as luzes dos postes da cidade,
Aqueles que nunca se apagam,
Pois os que apagam
São inimigos da civilidade
Vagabundista,
Que do mar não resgata
Seus filhos naufragados no submundo
Da madrugada.

E salve!

Salve as luzes dos postes da cidade!

Porque não quero ficar bêbado no escuro.

André Espínola

Em breve: Poemetos, de André Espínola




EM BREVE NOVAS INFORMAÇÔES SOBRE
O NOVO TRABALHO DE ANDRÉ ESPÍNOLA
EM PARCEIRIA COM FELIPE FERREIRA.
POEMETOS!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Poço Inesgotável


Quando olho para o mar,
Já não há mistério,
Tudo parece desvendado

Por antigas poesias.
Mas tu, não.

Esperas para ser desvendada
Pelas minhas.

Acabam-se letras,
Palavras,
Metáforas
E linhas.

Enquanto tu continuas
Um poço inesgotável de poesias.

André Espínola

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Canta Um Jazz Pra Mim


O céu gigante
Sob minha cabeça
Foi pintado na parede
Distante
Do Universo.

E tu te pareces com ele.

Não teu corpo,
Ou tua voz parecida
Com a de Nina Simone,
Cantando um jazz anônimo
E sem nome.

- só ao ouvi-la
troco versos
em estrofes dissonantes -

Mas tu és como o céu,
Tão longe, e ainda assim,
Tão perto.

O movimento das tuas nuvens,
Posso senti-los daqui.

Então amor, canta um jazz para mim.

André Espínola

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terça-feira, 6 de novembro de 2007

Ca(a)tinga do Coração


Se tu desdobraces meu coração
Da morada tranquila do meu peito
Tal qual um corte
No bucho inchado de um bode
Desferido pelo facão
Enferrujado
Do sertanejo,

Verias que ele tem
A catinga da caatinga
Das mais ensolaradas manhãs
Inundadas pelas águas poluídas
Do canal da minha Agamenon Magalhães.

Pois eis meu coração,
Em sua forma pura,
Cardíaca,
Sem idealizações.

Ei-lo na tua mão.

Abraçá-lo-ias ainda?
Ou tuas poesias,
Todas,
Fora jogarias?
André Espínola

sábado, 3 de novembro de 2007

Poesia Muda do Mundo




Enquanto eu escrevo esta poesia
O restante do mundo faz o mesmo.

Os pássaros escrevem suas aventuras
Pelos caminhos inconstantes do vento
Num galho de árvore,
Que, por sua vez,
Escreve poesia como pequenos pensamentos
Registrados na madeira do tempo
De seu caule,
Onde também serve
De página marrom para vermes,
Lagartas e formigas
Que escrevem as impressões mortas
De suas vidas.

- por isso os hastes
das árvores
são cheios de rugas -

A minha poesia,
Em sílabas e metáforas mal colocadas,
É fraca e pobre.

A deles é mais rica.
Genialidade muda.

André Espínola

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terça-feira, 30 de outubro de 2007

Folha Morta



Eu sou a folha que cai no chão
Expulsa da árvore,
Escolhida a dedo pelo acaso,
Dormindo na quentura do asfalto
Que treme nas entranhas
Enchendo-a de medo.

Enquanto sente o calor
Queimar sua pele amarela,
Anseia o sopro do vento
Para levá-la ao anonimato daquela
Vazia viela.

Mas não tem vento.
E se não tem vento, o tempo
Carrega os carros que vêm
Passando no sinal verde.

- verde eram as outras
ainda presas na árvore,
antigas companheiras -

O vento não veio mesmo.

A pequena folha morreu no asfalto esmagada
E a visão do céu foi lhe foi tomada
Por pneus negros
De borracha.

André Espínola

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domingo, 28 de outubro de 2007

Papéis Trocados

A noite é um passeio da morte por entre a cidade
Que dorme seu sono cansado e nervoso,
Bebendo junto aos bêbados soltos
Na madrugada.

A inércia de tudo não anuncia um jazz louco
Que toca em bares no meio de ruas
Negras, suadas e desertas.

- o vento carrega para longe
o solo seco e solto do saxofone,
e o frio que consigo traz e leva
é um banho de vida que a morte entrega -

Na noite a morte se embriaga
Com tragos nos lábios de putas em fim de expediente,
Como um carente cliente
Que com carinho a beija e a afaga.


Na manhã ela retorna ao seu ofício
E espalha suas vítimas que dormiram tranqüilas
Nas suas camas quentes e forradas.

- os óbitos da noite
foram assassinados pela própria vida -

André Espínola


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quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A Criança e As Formigas


Numa multidão de formigas
Saciando-se em ordem absoluta
Nas gigantes minas
Dos pedaços de bolo estragado,
Eu sou a criança que mira
Gigantes gotas d'água
Em suas cabeças mínimas,
E se regozija
Ao vê-las, desordenadas
E perdidas,
Correr de um lado para o outro.

Cadê a paz?
Cadê a segurança?

No sorriso inocente da criança.


(André Espínola)


terça-feira, 23 de outubro de 2007

Afrodite em Boa Viagem




Na beira da praia de Boa Viagem,
Meus olhos fitam atentos o mar,
Como que à espera
D'alguma aparição divina.


Talvez saísse de lá
Com o corpo molhado e nu, Afrodite,
Como saiu em tempos antigos
Das espumas fecundadas da Ilha do Chipre.


- enquanto as ninfas cantavam
e os deuses excitados regozijavam-se,
alguém na beira da praia chorava
sozinho e triste -

Mas Afrodite não vem.

Nem tu também
Emergirás das águas do Recife.




(André Espínola)